Um pouco da história da Pintura Encáustica



Encáustica, em grego enkaustikos quer dizer: esquentar, queimar, gravar com fogo. Tem como matéria prima básica a cera natural de abelha e resina Damar (seiva vegetal cristalizada), acrescida de pigmentos. Fazendo jus ao nome, o calor é essencial ao longo de todo o processo. Mantida aquecida em estado líquido, a fórmula é aplicada com pincel em suporte resistente ao calor.


Para entender a encáustica é importante conhecer um pouco de sua história.


Acho que é assim para tudo na nossa vida. Para entendermos alguma coisa é preciso conhecer para podermos perceber suas qualidades e beleza.


Foi na Grécia antiga que se inicia a história de encáustica que conhecemos. A princípio os gregos usavam a encáustica para calafetar os navios. Ao perceberem que a mistura de cera quando adicionada a pigmentos oferecia uma bela cobertura para os seus navios, começaram a usá-la para pinturas das embarcações de guerra.


Dois séculos Antes de Cristo, no Egito Greco-Romano, a encáustica foi muito usada para fazer os retratos das múmias. Eram máscaras mortuárias pintadas sobre madeira acopladas ao sarcófago onde a pessoa era sepultada. Essas máscaras são conhecidas como os Retratos de Fayum, nome do oásis Egípcio onde foram encontradas. Tive a oportunidade de ver algumas dessas máscara no MET – Metropolitan Museum de New York, preservadas em toda sua beleza, força e colorido.


Acredita-se que a mistura utilizada pelos pintores de Fayum era a cera de abelha, pigmento, resina, muito parecida com a mistura que usamos hoje. Na parte de ferramentas, acredito que era bem mais trabalhoso. Usavam o uma ferramenta para entalhe e para escavar, uma espátula aquecida para fazer a fusão e um braseiro de carvão para derreter a cera.

A encáustica era uma técnica lenta e difícil, embora oferecesse uma qualidade e durabilidade muito maior do que a tempera que também começava a ser desenvolvida nessa época. A tempera era um processo mais rápido e barato.


Em razão disso, no decorrer dos séculos a tempera foi crescendo na popularidade e a encáustica foi sendo esquecida quase chegando ao desaparecimento.


No Renascimento, aproximadamente entre meados do século XIV e o fim do século XVI, começou um novo interesse pela técnica da encáustica greco-romana, dentro do espírito geral da época de recuperação de soluções técnicas e artísticas da antiguidade clássica.


Encontramos em 1504 a primeira tentativa conhecida de reconstruir a antiga técnica por Leonardo da Vinci. Segundo Anonimo Gaddiano, Anonimo Magliabechiano ou Anonimo Fiorentino, autor do Códice Magliabechiano, um manuscrito  com 128 páginas, das décadas de 1530 e 1540, Leonardo da Vinci decidiu pintar com encáustica sua mais importante comissão de pintura: a pintura mural da Batalha de Anghiari, no Salão do Conselho do Palazzo Vecchio de Florença (1505), destinada a enfrentar a Batalha de Cascina comissionada a seu grande rival, Michelangelo. Leonardo desenvolveu uma técnica de pintura em cera que parecia funcionar adequadamente em trabalhos menores. Mas quando aplicada em uma grande parede, a técnica se mostrou incontrolável e Leonardo abandonou a pintura inacabada.

Figura 1- Leonardo da Vinci. A Batalha de Anghiari, 1504. Cópia de Peter Paul Rubens (1603) da parte central do mural pintado por Leonardo em encáustica; o trabalho ficou inacabado devido a problemas de execução com a técnica de pintura empregada.


Com as descobertas nas cidades de Herculano (1730) e Pompéia (1748) das pinturas murais muitas delas pintadas com encáustica, surgiu um novo interesse sobre essa técnica. Essa época tinha um grande interesse na recuperação da cultura, o chamado Neoclassicismo que nos brindou com o espirito científico do iluminismo. Entre 1750 e 1800 foram publicados mais de 60 estudos sobre encáustica. Duas dessas obras possuem um grande interesse. O primeiro deles foi apresentado pelo Conde de Caylus e o segundo por Vicente Requeno, ambos levando a discussões e escritos intermináveis.


Em 1754 Caylus apresentou quatro técnicas: a aplicação de ceras derretidas em madeira encerada; a aplicação de ceras em pó suspensas em água, posteriormente submetidas a tratamento térmico para fixação da tinta; guache em madeira encerada coberta por carbonato de cálcio em pó, também com um tratamento térmico final para definir as cores; e pintura em guache coberta com uma folha de cera.

Figura 2 – Dispositivo para manter as cores de cera em um estado fundido. Cilindros com cera colorida são mantidos dentro de uma caixa metálica fechada contendo brasas e equipados com duas pequenas aberturas para entrada de ar e exaustão de gás.


Vicente Requeno na Itália, publicou em 1787 um estudo de recriação da técnica levando ao surgimento de várias escolas dedicadas à pintura encáustica. Requeno propôs várias técnicas, incluindo: uma que usava paleta com facas aquecidas para aplicar e espalhar ceras coloridas; outra com sabão de sódio e cera em água, com um aquecimento final da pintura; e uma terceira baseada em resina mastic, aplicada aquecida e completado por uma camada final de cera derretida, necessitando de um braseiro próximo à pintura.


Desde o século XVIII até o século XX temos informações de algumas pesquisas e tentativas de recriação da técnica da encáustica. Foi no século XX com o advento da eletricidade que a encáustica começou a ser mais pesquisada e também um pouco mais fácil de ser trabalhada. A eletricidade trouxe ferramentas como paletas aquecidas, soprador de ar quente e ferros elétricos que incorporados ao processo da pintura encáustica ofereceram grande oportunidade de experimentação.


O artista mexicano Diego Rivera incorporou encáustica em seu mural na cidade do México em 1922 -3.

Nos anos de 1937 a 1955 Karl Zerbe chefia o Departamento de Pintura da Escola do Museu de Belas Artes de Boston se deparou com referencias aos retratos de Fayum e ficou muito entusiasmado em redescobrir os processos da encáustica.


Por mais de uma década ele pintou com encáustica e deu aula sobre essa técnica. Muito é creditado a Zerbe a revitalização do uso da encáustica e a inspiração de uma geração de artistas. Foi Zeber por meio de suas pesquisas que chegou à mistura de encáustica muito usada hoje pelos artistas: oito partes de cera de abelha, uma parte de resina damar, uma parte de Teberentina de Veneza [1]).

Figura 4 -Karl Zerbe – Melancholia – 1946 – Havard Universty Museum


Referências

GADDIANO, Anonimo Códice Magliabechiano. Disponível em: https://en.wikipedia.org/wiki/Anonimo_Gaddiano. Acesso em 02/12/2018


RANKIN, Lissa. Encaustic Art. The complete guide to creating fine art with wax. New York: Watson Guptill Publication, 2010.

Reconstruction studies from the Renaissance. Disponível em http://www.encausticcuni.com/reconstruction-studies-from-the-renaissance/


Acesso em 02/12/2018

TUBIÈRES, Anne-Claude-Philippe de, comte de Caylus. Mémoire sur la peinture à l’encaustique et sur la peinture à la cire. Geneve, 1755. Disponível em  https://gallica.bnf.fr/ark:/12148/bpt6k1172334.texteImage Acesso em 02/12/2018


MATTERA, Joanne. The Art of Encaustic Painting: contemporary expression in the ancient médium of pigmented wax”. New York: Watson Guptill Publication, 2001.

[1] Líquido viscoso que não deve ser confundido com a terebintina tradicional.


Amplamente usada pelos mestres da antiguidade, dá corpo à tinta com um tempo ideal de secagem. Atualmente tem sido substituída por um produto conhecido como Bálsamo do Canadá, mais fino e claro que a original.


Ana Carmen Nogueira, Mestre em Educação, Arte e História da Cultura pela Universidade Mackenzie. Graduação em Artes Plásticas. Especialista em Educação Especial com aprofundamento na área de deficiência visual e Arteterapia.


Desenvolve pesquisa de pintura encáustica, ministra cursos desta técnica e atua como Arteterapeuta no Ana Carmen Ateliê de Arte.


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